Resolvi escrever uma reflexão a respeito do nosso atual estado como povo e força cristã - a tal da nação evangélica. Fui motivado a fazê-lo diante de minha angústia e desesperança. Admito que o desânimo já cresceu além da conta.
Não é de hoje que vemos uma constelação de mazelas em nosso meio. A estiagem demasiadamente longa, no entanto nos tem drenado a energia de se crer num tempo melhor.
E sem nenhum fato novo que nos sopre folêgo - o que nos sobra?
Há neste rompante de auto-crítica muito de intuição. Não fiz nenhum estudo profundo, nem pesquisei ou entrevistei amigos e conhecidos para formular o presente juízo de valor.
Nesse sentido, eu estou convicto do que escrevo pela minha vivência diária na internet, como blogueiro e leitor. Soma-se a minha desenvoltura nos meios evangelicais. Até recentemente estava à frente de uma editora convivendo com o mercado evangélico. Desde criancinha (e faz tempo viu) que me enfronho nos meandros de ministérios cristãos. Participei, atuei e conheci um bocadão de gente. Então isso me dá certa autoridade no uso do boné sanguíneo que faz aflorar emoção, sentimento e percepção.
Mas caro leitor, não preciso ir longe. Essa conclusão: de que as coisas não estão bem, não é exclusividade deste que escreve. Basta um bater de olhos e imediatamente perceber que do nosso âmago sobe aquele sentimento de dejá-vu. O filme vai se repetir e já sabemos como vai terminar. Os erros se repetem num carrossel desgovernado. A igreja evangélica opta - consciente ou inconscientemente pelo caminho do Titanic. De nada serve limpar as cadeiras no convés.
I. Crescente Infantilização Teológica. Nossa produção é pífia e fraca. Não há discussão (no sentido acadêmico e nobre). Os centros de estudo se fecham em posições cada vez mais extremadas. Qualquer voz discordante é abatida no nascedouro, sem piedade. Antagonizar para tirar mérito e em seguida desclassificar. Traduz-se diretamente do americanismo livros textos que se canonizam via comando e controle com um marketing impositivo e arrogante. Parece que não se tem mais nada para aprender, desenvolver, contextualizar, analisar, contrapor, acrescentar ou diminuir. Muito menos revolucionar. Há exceções? Salvo engano - não.
II. Espetacularização do Ridículo transformado em Ícones da Juventude. A crescente irracional busca por impacto em apresentações e aparições de certos nomes da fama evangelical, tem produzido uma estapafurdia caricatura do cristão. A demanda pelo novo (no sentido de moda, modismo, lançamento) tem criado espetáculo histriónicos numa mistura de pseudo espiritualidade e exageros emotivos e manipulativos. Isso tudo só serve aos imbecis. E os imbecís são servidos ‘a eles’, aos borbotões. A alavancagem midiática serve à comercialização e interesses empresariais. O ministério está abaixo do terciário interesse. Sem engano.
III. Esvaziamento da Liderança Nacional. Longe de regurgitar o choro dos órfãos do Caio, e muito menos apregoar um papismo à la gospel tropicalista. Mas refiro-me a nomes de expressão nacional que não se intimidem frente a um debate público de nível (sem artimanhas apelativas do tipo ‘mas a Bíblia diz’). Público perante a população em geral, e público também para o interno - os evangélicos. Carecemos de nomes que aglutinem e que enobreçam a representatividade. Nomes que não firam a descência Evangélica. Nomes que não tragam uma agenda repleta de politicalha (com cheiro de enriquecimento ilícito e sangue de inocente). Nomes que não nos remetam às suas agendas comerciais de produtos editoriais de quinta categoria (assemelhados a estercos enlatados). Nomes que sejam genuinamente brasileiros e sim - comprometidos com a transformação macro (mesmo que corram o risco de serem taxados de messianistas).
IV. Re-edição da Dependência Evangelical Americana. Não sei - só sei que é triste: o que é pior, receber o filho de Billy Graham como grande esperança ou manter o Malafaia no status-quo. Por falta de mais alternativas, opção NDA! Como diria um amigo de fala inglesa: Neither. Rick Warren ou bossa nova na casa de espetáculos Tom? Neither. Programas ‘top-down’, transmissões via satélite (dubladas ou tradução simultânea)? Neither. Grandes nomes para grandes massas ou massas grandes para nomes grandes? Neither. Em pleno século XXI, repetimos os trejeitos de uma republiqueta de bananas. Em pleno avanço de país emergente e possivelmente uma das 5 grandes potências em 25 anos, somos, como povo evangélico imaturos, dependentes, bebês-chorões, mimados, fracos e covardes. Neither: não há nem contra-argumentos, nem justificativas.
V. Institucionalização do poder dentro da própria Instituição. As agendas (ou a missão) das instituições foram substituidas pelo fim em si mesmo. Ao invés de serem meios para se alcançar o ideário cristão maior, se tornaram matriz da manutenção de poder. Pessoas no comando, mantém, reforçam e garantem o poder para se manter, reforçar e garantir o poder. Organismos que nos remetem ao feudalismo misturado com um capitalimo desenfreado - ora usando a máquina encastelada, ora a dependência econômica. Há exceções - mas façamos uma auto-crítica profunda e descobriremos que o problema é mais embaixo.
VI. Rebanho Vazio e Superficial. Na sua grande maioria o rebanho evangelical é massa de manobra manipulável. Apesar do grande volume de Bíblias e livros vendidos nos últimos anos, a leitura é disfuncional e superficial. A postura bereana é nula. A fraca herança educacional só contribui, e pouco se desafia no sentido da mudança. Interessa à liderança essa perspectiva sombria pois serve como cortina para que os jovens pastores se ‘percam’ com seus problemas micro.
VII. Ausência de Inovação e Estrutura na Educação Teológica. O postulante ao ministério e pastorado carece de opções. Não há concorrência entre ofertantes - há o que sobra, o resto. Pelo porte do Brasil, temos quantos bons centros de preparo teológico e pastoral? Somos quantos Estados da Federação? Temos quantas cidades representativas? Se tivéssemos um ENEM Teológico, o número de carteiras se reduziria mais ainda. O que fazer?
VIII. Editoras. Com um mercado relativamente grande as Editoras tem tido bons anos de resultados, sem no entanto se deter para preparar e lançar autores nacionais. Ou melhor Autores Nacionais. O que temos visto e lido tem sido abaixo da crítica. Deveríamos também reconhecer que nossa dependência em importar e traduzir obras estrangeiras é uma acomodação num modelo ultrapassado e que em nada vai auxiliar em prol da mudança. Que tal um esforço na descoberta e desenvolvimento de novos autores?
IX. Ausência de movimentos de ruptura. Acomodação, desânimo, distanciamento. Por essas e outras razões, é muito difícil esperar por um movimento de reflexão e de mudanças. Uma iniciativa que venha propor alternativas positivas, que auxilie os que realmente são sinceros e desejosos do progresso do Reino - sem demagogia e sem falsas promessas.
X Imobilidade. Pessoalmente convivi no passado com gente que por idade (eramos mais jovens) ou ingenuidade, facilmente se entusiasmava por colocar ordem na casa. Era relativamente mais fácil de se juntar e tomar pelo menos uma atitude e assinávamos uma Declaração. Hoje nem atitude nos é servida ou siquer temos para oferecer. De imediato produziamos um Manifesto ou uma carta aberta. Hoje vejo muita gente infeliz, aflita e revoltosa, com seus corações muito afinados com a agenda do Reino de Deus, a grande Comissão, o testemunho pessoal íntegro e uma vida exemplar de santidade e compromisso. Mas estão isolados e desarvorados com o que nos desafia diante do atual estado das coisas.
Façamos algo, por favor!!
São Paulo, Agosto de 2008
Volney Faustini
Conclamo para que voce me ajude a aperfeiçoar esse texto e assinemos juntos.